segunda-feira, 23 de junho de 2008

Voz

As ruas aqui têm vários nomes
Ou mesmo nenhum
Aonde o poeta é alvejado
Por fazer da própria mente seu lugar
Sendo as palavras suas amantes
E suas maiores inimigas,
Num tempo em que as rosas têm um cheiro pueril de passado.

As direções dos versos desse andarilho
São muitas, confusas.
Mas sua vida é mesmo feita de enigmas
Que, quando menos espera,
Iluminam-se,
Traduzindo a linguagem do universal
Que une todas as almas livres do mundo.

E nesse frágil e lento segundo
O poeta simplesmente só
Olha firme em direção ao céu,
Abre as portas da alma,
E se cala.


Jaisson
Dez 2004

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Poesia e senso-comum

Cada vez que um poeta vem ao mundo
O bater das asas de uma borboleta no Saara
Não muda nada.

Cada verso que ele traz à vida
Nasce de um canto dolorido que ele musicou
Mas ninguém ouviu.

Cada vez que um romântico grita
Eu te amo!
Morre uma fadinha na Conchinchina.

A cada cem anos de poesia
Mil poetas, um milhão de versos
Nenhum centavo no bolso.

A cada estalo de canhão,
Cinqüenta hectares a mais,
E uma dúzia de poetas a menos.

A cada esmola generosa,
Apenas um sorriso,
Nenhum poeta desconfia.

O poeta corre, tem pressa
O folhetim tarda, mas não falha.
A lerdeza é inimiga de sua perfeição.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O descontrole da tragicidade do amor



Sim, este conceito polissêmico é totalmente descontrolado. Não se pode prever seus desdobramentos, suas falhas e as fissuras que alteram todos os planos que tão meticulosamente vamos arquitetando.
Ele não obedece nunca ao roteiro e sempre vira improviso.
Nos põe a buscar as essências, ainda que estejamos tão empoeirados de cotidiano. Nos instiga e preserva. Desconstrói e ainda pisa nos caquinhos. E sai faceiro.
Ainda que tudo seja simples, seu objetivo maior é sempre a tragédia. Se alimenta de todas as descontinuidades e limitações de nossas frágeis almas.
Ele não declara nada. Sempre dissimula.
Não canta. Balbucia ao pé do ouvido.
Na verdade ele é o nada, porque seu porvir é a inexatidão das contingências.
Ele rompe a integridade de nossa subjetividade. Espalha a discórdia no ego.
O amor soluça, nunca vocifera.
Mente ser eterno quando só vive da mudança.
O amor é o calço desequilibrado que nos sustenta no chão da certeza de se saber mundo.
Ele não recoloca e nem ajusta.
Ele nos descentra.


Jaisson.

Só


Sigo só

Ó vida que embala

Meus imbróglios, meus embrulhos

Meus soslaios e espúrios

Meu nó.

Subo o muro devagar

Até rachar meus sonhos nos vidros cacos

Mãos ardentes em nacos

De dó.

Sigo como pranto de chaleira

Porque só obedeço ao céu

Sigo como rasgo de esperança

Porque não faço senão esperar

O par de olhos que há de ninar

Essa minha solidão de bordel.

domingo, 15 de junho de 2008

Cinzas



Esse ventinho chorado pela noite
Embalou meu novo amor,
Que como uma paixão de carnaval
Reluzia e ria um riso cor-de-passado
Que parecia inaudível aos olhos embaçados
Dos homens que a canção da vida
Fez questão de jogar fora,
Depois de tudo, num último retoque
Do cansado repique
De uma amanhecida quarta-feira qualquer.

Querendo ou não,
Teu sorriso era apenas um singelo dolo
Grunhindo os velhos medos e ardis
Raiados em certos dias sem princípio, nem morte, nem antes...

Épocas se digladiariam com ardor e esgrimas cegas
A cada página da epopéia em branco
Que eu ia rabiscando sem amor,
Desejando ser o herói engolido por um mar tempestuoso.
Espumando, só de querer.
Ser só ente, e nunca mais ser.

Atravesso ruas, cobertas
Nuas?
Serão esses confetes mais pisados que minha alma
A roupa ignominiosa que faz tão belos
Todos esses sonhos de entrudos frívolos e amores-sem-capricho?

És eterno, Vento?

Porque então não mostrar a um mortal de tantos martírios
Teu segredo que eu afinal já sei!
Que teu início é sem começo
E que lá no teu fim,
Enfim,
Só há versos esquecidos,
Poetas doidivanas,
E a doce esperança de um dia, quem sabe, voltar?


Jaisson
Junho 2008

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Reflexões sobre as rimas mais caras ao amor

Devagar vamos aprendendo que somos seres famintos por rimas de amor: Quando amamos, admiramos e ao mesmo tempo rejeitamos todos os monstros do outro; Se somos profundamente amados, criamos um mar de indiferença e nos separamos daquele (a) que loucamente segue nosso passo; Se desprezados, choramos todas as mágoas do mundo em um martelinho de melancolia que espicha ainda mais o amor que não devíamos cultivar.
Talvez o nosso grande carma, e ao mesmo tempo dádiva, seja essa característica de sermos seres que conseguem criar sempre novas vontades para manterem-se vivos. O ser humano vive porquanto deseje, e, ao realizar desejos, cria logo outros novos. É a eterna busca por um estado pleno que nunca pode ser alcançado. E assim é com o tal amor.
De forma pueril, nos encorajamos em buscas quase sempre infecundas pra encontrar “a metade da laranja”, “o verdadeiro amor”, “o príncipe ou princesa encantada”. E o pior é que, mesmo sabendo que tudo isso é um grande embuste, ainda permanecemos presos a todas estas pieguices. Talvez este seja um texto racional demais, poderão dizer todos os falsos românticos. Estes, não raras vezes, contentam-se em imputar a toda e qualquer situação amorosa os velhos bordões do tipo “não posso mandar no meu coração” (uma metáfora que em termos freudianos poderia ser vista como um mecanismo de defesa do ego, a assunção da própria incapacidade de controlar os rumos da própria vida) ou ainda “fomos feitos um pro outro” ou “alma gêmea” (duas aberrações em termos de historicidade, já que ninguém é concebido com seu respectivo par, que estaria perdido como um eldorado em algum lugar do planeta).
E imaginamos tudo isso por uma simples razão: precisamos criar essas narrativas para agüentar o peso de uma existência desconexa. Afinal, o que seria do mundo se todos tivessem a plena consciência dessa impossibilidade de completude, da falácia da felicidade e do engodo que criaram (e chamaram amor) para dizer que temos de buscar alguém que seja a nossa suposta metade que se extraviou por aí? O que seria de nós se de uma hora pra outra perdêssemos esse nosso referencial simbólico e nos descobríssemos seres plurais, descentrados e apenas soltos ao léu e ao acaso nessa brincadeira de roda que é a vida?
É difícil dizer assim, em um textinho bobo. Mas posso provocar: Não seria bom que finalmente nos déssemos conta que amar, mais do que qualquer outra coisa, é (re)conhecer(se)?

Jaisson
Junho de 2008

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Devaninho

Aquele que devaneia só,
Sabe mesmo que cada devaneio
Deve muito a um só si
E que só devaneia de verdade
Aquele que de si mesmo ousa sentir saudade,
Enquanto outros nem aí...

Mas todos estes que riem de mim
Ainda não sabem que não haverá de mim vicários.
E um dia vão se lamentar.
E nesse dia todos devanearão,
E eu, devaninho...

Jaisson
Maio 2008
(inspirado em um poeta aí)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Àquela

Ao redor daquelas doces casinhas
Feitas de pavio de macaxeira,
Um garoto sonha um dia
Em aprender o que é ter saudade.

Tanta vida em tão pequeno corpo
Transbordava-lhe a alma de tantas cantigas
E cantava o amor que um dia teria
Com os versos que um dia iria saber escrever.

Um dia ela veio,
Como uma sonata bailante
Em verdes panos, que de tão lentos e escorridos
Faziam seus olhos vibrar como dois vagarosos minuetos...

E dali em diante, seus sonhos fizeram-se fogo
Fogo calado, um tormento macambúzio
Choro de penas e dós que chorava
Infinitamente acordado esperando um afago matutino.

Houve anos em que ela morria também
Mas sempre voltava,
Sempre mais cálida, e no âmago uma fome ferina
Que saboreava cada paixão e envenenava seus donos,
Um a um, de tanta volúpia.

O garoto havia virado pedra
Amansado pelas décadas
Que o fizeram esquecer o gosto do néctar daquela voz,
Jocosa e agradável
Como as viagens que fizera para dela tentar desertar.

Jogou buraco com a morte todo domingo
Por anos a fio que nem contar mais pôde
Sempre ganhava.
De jogos de solidão ninguém soube mais que ele nessa vida.

Aprendeu a manchar todos os amores
Com um fel destilado dos próprios humores
Que gota a gota lhe iam matando,
Que a cada gota traziam reminiscências dessa mulher-tempestade
Que choveu e cegou todos os seus sentimentos,
Deixando-o descalço ao sabor da terra,
Que ponteou a sola de seus pés,
Outrora faceiros,
Agora desabridos.
Um dia voltou ao seu povoado
Sentou-se a margem do nada
E revirou montes de nostalgia lamacenta
Em busca de encontrar a inocência que achou que um dia
Haveria de ter tido,
Sabe-se lá quando...

A morena não voltou porque nunca se foi
E as promessas que fez para os próprios botões
Achou uma a uma e ali disse adeus.
Iria buscar o reino daqueles que amam sem ferir.
Lá onde deságua o mar dos meninos sem coração
E enterrá-las sob a areia fina e marejada.

E lá vaguearia até que o infinito colocasse um calço em sua vivência,
Riscando na praia e nas rochas aquele nome profano
Daquela dama que de uma só vez
Deu-lhe toda vida
Com a condição de que ele nunca a vivesse
Sem antes beijá-la,
Para poder então morrer no cais das eternas juras desentendidas
Que um dia quiseram fazer coloridas
Toda flor (amor!) que nesse mundo quisesse se fazer nascer.


Jaisson.
Maio de 2008.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Deserto dos corações que amaram


Dorme vento

Não sopra assim

Me embale cá pois,

A noite sempre enxuga

O pranto que o dia enruga.

Coração já sem rédeas

Galopando gracioso

Pisando daninhas

Com ar jocoso.

Plantas de dor sem fim

Uma arde, paixão

Outra rompe, ah rancor,

Quantas coçam, saudades

Todas voltam, mais rápido

Quando indolentemente desbaratadas

Pelas patas canhestras da razão

Ah campo ardiloso e vil

Que guarda mil corações sepultados

Mortos e descaroçados

Por um deleite de prazer.

Ah campo estranho e perigoso!

Semeado à noite, com gozo

por um coveiro intrépido

chamado amor.


Jaisson

Maio 2008

Alheio amor de toda vida

Não flerte comigo moço, não posso, não há tempo para pilhérias!
Esse cestinho de poesias não vai comprar minha alma,
Sabes que prefiro colarinhos cheirosos
A estes teus versinhos manhosos...

Quase sempre me retiro do espetáculo
Pra algum canto escuro dentro dos meus bolsos
Cheios de moedas e canções mundanas
Perdidas entre desfolhadas paixões tempranas...

Amélia não sente minha saudade, infortúnio!
Hirsuta mulher cheia de veneno nas ventas,
Todo um ódio molhado nos olhos e
Nenhum desvio sequer entre os lábios de libélula.

Aquelas noites quase matutinas fizeram do meu corpo teu carma,
Miríades que recontei na falta de um afago teu que nunca senti.
Amor que veio ao mundo sem cueiros e
Sepultou o último grito de paz que rangeu nesse melindroso coração.

Jaisson
Maio 2008